SEMINÁRIO

Especialistas discutem estratégia, IA e papel das ruas na mobilização eleitoral

Integração entre mobilização presencial, estratégias digitais e uso responsável da inteligência artificial foi tema de duas palestras

quinta-feira, 23 Julho, 2026 - 12:45

Foto: Tatiana Francisca/CMBH

"O algoritmo entrega conteúdo, mas quem entrega votos é a mobilização." A afirmação do estrategista político Daniel Machado sintetizou um dos principais debates da manhã desta quinta-feira (23/7) no III Seminário de Comunicação Pública, realizado na Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH). Em um cenário de campanhas cada vez mais influenciadas pela tecnologia, Machado defendeu que a conexão humana continua decisiva para conquistar a confiança do eleitor. Já o especialista em marketing político Rodrigo Bueno mostrou como a inteligência artificial pode ampliar a eficiência das campanhas sem substituir a estratégia nem a identidade da comunicação. As palestras dois dois estudiosos integraram a primeira parte da programação do evento. 

Especialista em Marketing e Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e coautor da coleção Marketing Político no Brasil, Daniel Machado defendeu que não existe estratégia eleitoral sem mobilização presencial. Para ele, o avanço das plataformas digitais transformou a forma de comunicar, mas não eliminou a importância do contato direto com o eleitor.

Ao questionar o público sobre onde estaria a verdadeira conexão — nas ruas ou nas redes —, Machado apresentou dados da prestação de contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) referentes ao primeiro turno das eleições municipais de 2024. Segundo ele, as campanhas investiram R$ 808,7 milhões em materiais impressos, R$ 279,2 milhões em produção para TV, rádio e vídeo, e R$ 179 milhões em impulsionamento digital.

“O alcance das mídias sociais pode ser maior, mas a conversão em voto é mais forte nas ruas”, disse Daniel Machado.

Segundo o palestrante, entre 70% e 80% dos mandatos ainda são construídos a partir de estruturas territoriais. Nesse contexto, as redes sociais cumprem um papel importante de ampliar mensagens produzidas nas ruas, mas não substituem a construção de confiança.

Polarização

Machado também alertou para os efeitos dos algoritmos na amplificação da polarização, da superficialidade e da lógica do "nós contra eles". Para ele, o caminho mais eficiente é integrar mobilização territorial e comunicação digital. Na avaliação do estrategista, as redes fazem o eleitor lembrar, enquanto as ruas fazem acreditar. 

Ao apresentar a chamada "jornada da mobilização" (conhecer, confiar, participar, defender e multiplicar), Machado afirmou que a sociedade vive um paradoxo: pessoas hiperconectadas, mas emocionalmente desconectadas. Encerrando a palestra, destacou que continua acreditando que campanhas vitoriosas se apoiam no que ele chamou de"4S": segmentação, saliva, sapato e suor. "O eleitor mudou, mas ainda somos humanos. O voto é emocional e emoção se constrói na presença", concluiu.

IA acelera processos

Na palestra "Inteligência Artificial na Política: Da estratégia ao resultado", o estrategista de marketing político Rodrigo Bueno apresentou aplicações práticas da inteligência artificial em campanhas eleitorais e destacou que a tecnologia deve ser utilizada como ferramenta de apoio, e não como substituta da estratégia.

Fundador da Deja Estratégia, Bueno diferenciou as plataformas abertas de inteligência artificial das soluções institucionais desenvolvidas para campanhas. Segundo ele, grandes equipes têm investido em ambientes fechados para garantir maior personalização, segurança e eficiência.

Assim como Daniel Machado, o palestrante reforçou que as redes sociais funcionam como uma escala para ampliar o que acontece nas ruas. A IA, segundo ele, permite aumentar a velocidade e a produtividade das campanhas, mas as decisões estratégicas permanecem essencialmente humanas.

Entre os usos mais comuns da tecnologia, Bueno citou a tradução de legendas, o refinamento de roteiros, a edição automática de vídeos, a geração de legendas e o teste de diferentes abordagens antes mesmo da gravação dos conteúdos. 

"A IA entra no operacional; a identidade da campanha continua sendo humana", afirmou Bueno.

Conteúdos semelhantes 

O especialista destacou ainda que a inteligência artificial pode contribuir para pesquisas e leitura de cenários, transformar um discurso em diferentes formatos para redes sociais e aplicativos de mensagens, adaptar propostas a públicos específicos e acelerar respostas durante uma campanha.

Por outro lado, ressaltou que a definição do que comunicar, para quem e em qual momento continua dependendo da análise política e da capacidade estratégica das equipes.

Ao abordar o cenário das eleições de 2026, Bueno chamou atenção para um novo desafio: com praticamente todas as campanhas utilizando ferramentas semelhantes de IA, os conteúdos tendem a ficar cada vez mais parecidos. Nesse contexto, afirmou, o diferencial estará justamente na autenticidade e na capacidade de produzir conexões genuínas com os eleitores.

Como exemplo de uso estratégico da inteligência artificial, o palestrante mostrou como a tecnologia pode adaptar a linguagem de um plano de governo para diferentes bairros, faixas etárias e perfis de eleitores, tornando a comunicação mais próxima da realidade de cada público, sem perder a coerência da mensagem.

Superintendência de Comunicação Institucional

III Seminário de Comunicação Pública da CMBH