Fake news, crise de confiança e planos de ação em disputas fecham palestras
Com plenário lotado, profissionais de alcance internacional falaram sobre os desafios da democracia no Brasil e no exterior
Foto: Cristina Medeiros/CMBH
Com seu principal plenário lotado, a Câmara Municipal de Belo Horizonte promoveu, na manhã desta quinta-feira (23/7), seu III Seminário de Comunicação Pública com o tema "Estratégia, Inteligência Artificial e Democracia em Ano Eleitoral". Entre os palestrantes do evento, que começou pela manhã e adentrou o início da tarde, estiveram presentes a presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) e professora de Ciência Política da UFMG Helcimara Telles; e o jornalista, consultor e estrategista político Celso Lamounier. Enquanto a pesquisadora tratou dos desafios da comunicação política em tempos de redes, fake news e crise de confiança; o consultor abordou as estratégias usadas em processos eleitorais e apresentou a campanha da ex-vice-presidente do Peru, Marisol Espinoza Cruz, ao Senado daquele país. A íntegra do seminário pode ser acompanhada pelo canal da Câmara Municipal no Youtube.
Teorias conspiratórias
“Nós estamos em um mundo onde as opiniões se tornaram verdades sem método e, sobretudo, sem ciência”, explicou a presidente da Abrapel ao falar da disseminação de teorias conspiratórias e fake news na contemporaneidade. De acordo com ela, a sociedade tem convivido com um processo de produção deliberada da ignorância, muitas vezes, para fins políticos.
“Teorias conspiratórias não surgem apenas porque as pessoas acreditam em fatos falsos. Elas aparecem porque as derrotas precisam ser transformadas em uma história com sentido”, argumenta a pesquisadora.
Ela exemplificou o argumento a partir da profusão de notícias acerca das vacinas contra covid-19, que geraram suspeições e teorias conspiratórias sobre o surgimento do imunizante em tempo recorde. “Nunca, em tempo algum, se desenvolveu vacina em tempo tão curto, e isso faz com que as pessoas suspeitem e, a partir daí, as teorias conspiratórias mudam a política, interferem na decisão do voto, sobretudo, com as inteligências artificias”.
Ainda de acordo com ela, a crise de confiança nas instituições e nos representantes políticos amplifica os efeitos das fake news, tornando-as mais difíceis de serem contrapostas. Segundo a pesquisadora, vive-se um período em que as instituições políticas têm tido dificuldade para levar informações corretas até o whatsapp do cidadão comum, que se vê diante de uma sucessão de mensagens falsas que circulam em ambiente digital.
Obstáculos à democracia
Diante desse cenário, Helcimara Telles explicou que a checagem de informações se torna ainda mais complexa, uma vez que a verdade teria sido incorretamente subjetivada. “A verdade existe, a verdade não é relativa”, aponta Helcimara, que alerta para os perigos de um momento em que “opiniões vêm se tornando verdade, sem método e, sobretudo, sem ciência”.
Diante dos obstáculos que se colocam para a democracia contemporânea, a pesquisadora salienta: “sem confiança, a comunicação política pode informar, mas dificilmente conseguirá produzir legitimidade”.
Ao concluir sua fala, a cientista política apontou um norte para o fortalecimento das democracias a partir de cinco pilares: acesso à informação confiável; pluralidade de vozes e representações na esfera pública; transparência nas decisões públicas; prestação de contas pelos atores políticos; e confiança, esta última, necessária para a criação de uma base relacional que sustente o engajamento e a legitimidade democrática.
Estratégias eleitorais
O consultor político Celso Lamounier falou sobre estratégias eleitorais. De acordo com ele, as campanhas utilizam símbolos para compartilhar de maneira simples com o eleitor mensagens que demandariam argumentos complexos e de difícil entendimento. Lamounier lembrou, por exemplo, que, na Argentina, Javier Milei usou a motosserra, que simbolizava os cortes que o então candidato faria na máquina pública; Barack Obama, nos Estados Unidos, usou o slogan “Yes, we can”, que representava a capacidade de superar desafios e se conectava com a conjuntura daquele momento. O palestrante citou, ainda, a conhecida referência do presidente brasileiro Luis Inácio Lula da Silva à picanha, símbolo do prometido aumento no poder de compra do eleitorado.
“Numa fala daquela, que aparece em todos os veículos, ele (Lula) está falando de poder de compra, de inflação, ele está falando de muita coisa, que demoraria muito mais pra explicar de outra maneira”, aponta Lamounier a respeito da importância de símbolos e simplificações nos discursos de campanha para que se atinja um maior número de eleitores.
Emoção conecta
Ele também apontou que estrategistas políticos precisam ter como premissa o fato de que a emoção vem antes da razão. De acordo com ele, antes de pensar se faz sentido, se concorda com a informação, o eleitor se conecta emocionalmente ou não com a mensagem. E, para saber se a peça de campanha será eficaz, é necessário que sejam realizados testes e pesquisas junto ao eleitor.
A partir do momento em que a mensagem foi simplificada, são necessários testes para saber como o eleitor vai absorver aquele conteúdo. Apenas se o resultado junto ao eleitorado corresponder ao esperado, o conteúdo de campanha será amplificado, aponta Lamounier. A adoção de tais procedimentos, segundo ele, gera segurança à equipe de campanha em relação ao que está sendo divulgado.
Imagem que gera confiança
O profissional participou da campanha da ex-vice-presidente do Peru, Marisol Espinoza Cruz, ao Senado, em um cenário que reunia conjuntura complexa, nove presidentes em um período de dez anos, alta instabilidade política e desconfiança nas instituições. De acordo com Lamounier, pesquisas demonstravam existir um forte sentimento antipolítica no Peru, mais ainda que no Brasil. Conforme o pesquisador, enquanto no Brasil a rejeição mobiliza o eleitorado; no Peru, faz com que as pessoas deixem de votar.
O palestrante apresentou ainda o slogan da candidata “Firmeza para mudar com a experiencia de quem sabe fazer”, elaborado a partir de pesquisas junto ao eleitorado. Ele também tratou das peculiaridades daquele país multicultural para angariar eleitores. Conforme Lamounier, a campanha ao Senado produziu peça no idioma quéchua, que também é falado naquele país, além do espanhol.
O estrategista explicou que a candidata Marisol Espinoza foi reposicionada como alguém com a firmeza necessária para resolver os problemas do país, que incluíam insegurança, pobreza, insegurança alimentar e falta de acesso à água potável.
Lamounier falou, ainda, da necessidade de se adaptar a campanha à realidade do eleitorado. No Peru, por exemplo, muitas pessoas, apesar de terem acesso à internet, têm dificuldade para assistirem vídeos, em decorrência de limites nos pacotes de dados móveis. Diante disso, era necessário que a campanha também se comunicasse com o eleitor por textos e mensagens de áudio, que consomem menos dados.
Ao apresentar exemplos de campanhas do exterior, o profissional explicou que sua intenção foi trazer novas referências para o público do seminário. Segundo ele, experiências internacionais podem apresentar novas ideias para o desenvolvimento de campanhas no Brasil.
Superintendência de Comunicação Institucional



