CULTURA

Relatório aponta que funk de BH é o segundo mais consumido do país

Artistas e especialistas defendem valorização de manifestação cultural e destacam sua relevância econômica para a cidade

quarta-feira, 24 Junho, 2026 - 13:45
parlamentares e participantes presentes em audiência pública na câmara municipal de bh

Foto: Tatiana Francisca/CMBH

O funk movimenta a economia criativa de Belo Horizonte por meio da produção musical, do engajamento em plataformas digitais de streaming, de bailes e de apresentações. A força econômica desse estilo musical foi defendida por artistas, produtores musicais e especialistas que participaram de audiência pública realizada pela Comissão de Educação, Ciência, Tecnologia, Cultura, Desporto, Lazer e Turismo nesta quarta-feira (24/6), a pedido de Iza Lourença (Psol). A parlamentar é também autora do Projeto de Lei (PL) 734/2026, que busca instituir uma política permanente de valorização do funk como expressão cultural e atividade geradora de trabalho e renda. Ela avalia que, apesar de todo o preconceito e da perseguição, o funk continua a ser um dos gêneros mais ouvidos do país. “O funk é arte, é cultura, é trabalho e renda. O funk movimenta a economia em BH e queremos promover essa arte”, afirmou a parlamentar.

Patrimônio cultural e salvaguarda

A antropóloga Nicole Faria Batista destacou a importância do “direito ao patrimônio cultural”. Ela argumentou que a Constituição Federal assegura que o Estado tem o dever de proteger as manifestações culturais brasileiras de todas as matrizes formadoras. Além disso, informou que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) tem uma política específica para patrimônios que precisam de medidas urgentes de salvaguarda para sua perpetuação.

“Quando um bem cultural está em ameaça, a Unesco tem uma política específica, e se a gente olhar todas essas tentativas de criminalização do funk, pode pensar que a cultura e o passinho do funk estão com necessidades urgentes de salvaguarda”, disse Nicole.

Ela também relatou que está construindo, junto com o Fórum do Funk e outros pesquisadores, um levantamento histórico, antropológico e bibliográfico para elaborar uma indicação à Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), solicitando o registro de "um dos pilares estruturantes da cultura funk", o passinho.

Relevância econômica e transformação social 

A especialista em gestão de direitos autorais e integrante do movimento BH Vai Virar Baile, Nardelle Leão, apresentou alguns números de um relatório divulgado por distribuidoras musicais, relativos a 2025, que mostram que o funk de BH é o segundo mais consumido no Brasil nas plataformas de streaming.

“Em 2024, foram seis músicas do funk de BH no Top 50 do Spotify Brasil, o que mostra a relevância econômica do funk para a cidade”, disse.

Para o rapper SLK, o funk, o rap e o trap salvam vidas. “Eu sou uma prova disso. Fiquei 17 anos no regime fechado, depois mais quatro no sistema semiaberto e hoje estou em condicional; e o funk me recuperou”, disse. SLK acrescentou que também vem ajudando a recuperar a vida de muitos jovens que ainda estão envolvidos com o crime.

A dançarina Sami, do GT de Dança do Fórum do Funk, disse que o ritmo é sua única fonte de renda há dez anos. “O funk me transformou e me mostrou que o respeito tem que estar em qualquer lugar, independentemente da roupa que uso. Estamos aqui como resistência, mostrando que só nós podemos contar nossa história”, afirma.

Dançarino e gestor da Tropa dos Los Brabos, Riquinho afirma que o funk é ouvido por todos. Mesmo assim, segundo ele, os abusos policiais persistem. “Batem sem procurar saber; mesmo se você tiver um alvará, não adianta”, disse.

O vereador Sargento Jalyson (PL) disse que se preocupa com o funk nos aglomerados e nas vias públicas devido à falta de controle e de segurança. Ele alertou para a importância de não permitir que o crime organizado entre nesses espaços e de preservar o direito ao descanso dos demais moradores. Por isso, sugeriu a criação da “Arena do Funk", espaço criado especificamente para apresentações desse estilo musical.

Combate ao preconceito e apoio do Executivo

Chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Cultura, Lorrana Andreza Salomão Carneiro disse que essa perseguição corresponde ao que as culturas negras e periféricas sofrem historicamente, a exemplo do que ocorreu com o samba e com a capoeira. “Precisamos atuar para que o poder público não corrobore esse tipo de situação”, disse.

Paula de Senna Figueiredo, diretora de Promoção das Artes da Fundação Municipal de Cultura, disse que a instituição apoia o PL 734/2026 e citou ações para fortalecer o funk e protegê-lo do preconceito e da criminalização. “Já recebemos o pedido de transformar o passinho do funk em patrimônio imaterial da cidade e estamos fazendo a análise”, afirmou. 

Superintendência de Comunicação Institucional