SAÚDE DA MULHER

Vereadoras debatem soluções para diagnóstico e tratamento da endometriose

Doença afeta uma em cada dez brasileiras. Especialistas sugerem melhor formação de médicos e realização de exames

sexta-feira, 18 Novembro, 2022 - 15:30
Foto: Cláudio Rabelo/CMBH

Doença inflamatória que acomete pelo menos 10% da população de mulheres brasileiras, causando dor e sofrimento, além de comprometer a fertilidade, a endometriose foi tema de audiência pública da Comissão de Mulheres, nesta sexta-feira (18/11). O debate, solicitado pela vereadora Marcela Trópia (Novo), contou com a presença de especialistas, representantes do poder público e mulheres que enfrentam as dificuldades trazidas pela doença que, mesmo fazendo parte do dia a dia de muita gente, ainda é de difícil diagnóstico e objeto de preconceito por sua estrita ligação com o ciclo menstrual. O assunto deve ser levado para as escolas e outros locais públicos, segundo encaminhamentos retirados ao final dos trabalhos.

Dor e preconceito

“É uma dor na alma. Você tem que trabalhar sangrando, morrendo de dor e fazer de conta que está tudo normal”. A frase é da jornalista Germana Delage, que desde os 16 anos sofre com a endometriose, doença inflamatória crônica motivada pela presença de tecido endometrial (que normalmente reveste o interior do útero) em outros órgãos ou na cavidade abdominal. Segundo especialistas, de 10% a 15% das mulheres em todo o Brasil sofrem com o mal, que causa muitas dores em todas as regiões do abdômen e até mesmo infertilidade.

Para Germana, ainda falta muito para que haja agilidade no diagnóstico e efetividade no tratamento. Segundo ela, que passou por vários médicos antes de saber que tinha a doença, a falta de apoio pode começar dentro de casa, onde os pais acabam por normalizar as fortes dores que ocorrem em períodos menstruais, negligenciando uma doença que, se tratada logo no início, pode não desenvolver sintomas mais graves. “Fiquei por dez anos com minha vida comprometida, inclusive emocionalmente”, disse a jornalista, contando que só descobriu que tinha endometriose quando foi fazer tratamento para engravidar.

Doença da Anitta

A endometriose ficou mais conhecida no Brasil por causa da cantora Anitta. Em julho desse ano, a artista foi submetida a uma cirurgia para tratar a doença e tornou pública a sua história. No mês de setembro, a atriz Larissa Manoela também foi a público dizer que tem a doença. A partir daí, muitas mulheres começaram a contar suas histórias para os médicos e buscar tratamento adequado.

Tatiana Teixeira é médica ultrassonografista e especialista em endometriose. Emocionada, contou a todos a história de uma mulher de 50 anos que a procurou dizendo que achava que tinha a "doença da Anitta". “Uma mulher de 50 anos, negra e pobre. É preciso fazer uma escuta atenta pois o diagnóstico depende muito de uma conversa honesta com a paciente”, disse Tatiana, que apresentou dados como o fato de 50% das pacientes terem quadro de forte dor pélvica e infertilidade por causa da doença, que já afeta com mais de 7 milhões de mulheres no Brasil.

A médica salientou ainda que a endometriose é o que chamam de “doença moderna”, pois a incidência tende a aumentar com a opção atual das mulheres de terem uma maternidade mais tardia e menor número de filhos, o que expõe a mulher a uma quantidade maior de estrogênio, hormônio que faz a doença desenvolver, uma vez que atua no tecido endometrial, mesmo quando fora da cavidade uterina. De acordo com a médica, alguns fatores têm dificultado ainda mais o tratamento da doença, como o fato de 53% das mulheres brasileiras nunca terem ouvido falar em endometriose, a demora entre o início dos sintomas e o diagnóstico estar em torno de 10 anos e a necessidade de exame de imagem com protocolo específico e profissional experiente. O diagnóstico deve ser feito por meio de consulta com exame físico ginecológico, ultrassonografia transvaginal e ressonância magnética da pelve. “Temos que focar em receber cada vez mais mulheres com endometriose”, reforçou.

Divulgação e políticas públicas

Com o baixo diagnóstico precoce e as dificuldades enfrentadas pela população para a realização de exames específicos, a endometriose vai ocupando espaço cada vez maior no dia a dia das mulheres no Brasil e em Belo Horizonte. Para enfrentar o problema e reverter a tendência de alta nos casos, é preciso que o poder público e a iniciativa privada trabalhem juntos na instrução da população e na busca de um atendimento cada vez mais adequado e eficiente. Manoella Treis é professora e especialista em políticas públicas voltadas para o tratamento da doença. Para ela, que apresentou aos participantes dados comparativos entre Brasil e Austrália em relação ao tratamento de endometriose, é preciso que ocorra uma ação conjunta e integrada. “Temos que ter acesso à agenda governamental para a construção de políticas públicas voltadas para a área. A grande maioria das ações estão ligadas à conscientização, mas precisamos também avançar para políticas voltadas para o diagnóstico e tratamento. Mesmo quem tem acesso a consultas particulares enfrenta dificuldades. Quem tem sintomas aos 11, por exemplo, só vai ser diagnosticado aos 18”, explicou Manoella, que também é médica.

O médico João Oscar Almeida, que coordena o Núcleo Integrado de Pesquisa em Endometriose, concorda que é preciso buscar mais efetividade no diagnóstico, tendo em vista que a doença é um mal crônico que vai acompanhar a paciente pelo resto da vida. “O objetivo do tratamento não é acabar, pois a doença é crônica. Está criado então um ambiente fértil para o aparecimento de tratamentos mágicos. O objetivo é dar qualidade de vida e é preciso acolhimento e escuta. O pico de incidência da endometriose é aos 30 anos”, disse o médico, explicando ainda que hoje há mais perguntas que respostas. “Nosso sonho é encontrar um diagnóstico definitivo e precoce”, salientou.

Cristiane Veiga é da Coordenação da Saúde Integral da Mulher da Secretaria Municipal de Saúde. De acordo com ela, mesmo com o alcance do sistema de saúde, a doença ainda é de difícil enfrentamento. “Apesar da robustez da Rede SUS-BH, de ter como porta de entrada para as mulheres os centros de saúde que têm ginecologistas, de termos tratamento até para endometrioses profundas e graves, a doença ainda representa um grande desafio. Estamos trabalhando fortemente para sensibilizar, treinar e habilitar os médicos”, disse Cristiane. Segundo ela, o SUS-BH está terminando um protocolo que tem um capítulo específico para a endometriose. “Estamos muito focados e contamos com todos para melhorar a assistência às mulheres com endometriose”, salientou a doutora.

Encaminhamentos

Realizado em várias regiões do mundo com o objetivo de conscientizar a população sobre a endometriose, diagnóstico, tratamento e seus malefícios à mulher, o Março Amarelo poderá, a partir de 2023, contar com a ajuda da Câmara Municipal de Belo Horizonte em sua divulgação e mobilização. A informação foi dada pela vereadora Marcela Trópia, ao ouvir que a data é fruto de mobilização da sociedade em várias regiões. “Adorei a ideia do Março Amarelo aqui. Vamos planejar para o ano que vem”, disse.

O Março Amarelo surgiu de um movimento realizado nos Estados Unidos, em 1993, e idealizado pela ativista Mary Lou Ballweg, portadora de endometriose. Em 1980, Mary Lou fundou a primeira associação voltada à doença após realizar a Semana de Conscientização sobre a Endometriose.

Marcela e a presidente da Comissão de Mulheres, vereadora Flávia Borja (Avante), também se comprometeram a estudar uma forma de levar o tema às escolas do município, com o objetivo de conscientizar as adolescentes sobre o assunto e a importância do diagnóstico precoce.

Superintendência de Comunicação Institucional

Audiência pública para discutir sobre a Endometriose - Comissão de Mulheres