Bancários apontam impactos à população com redução de agências do Bradesco
Clientes estariam sendo "empurrados” para atendimento digital e trabalhadores demitidos. Idosos e PcD seriam os mais afetados
Foto: Tatiana Francisca/CMBH
O fechamento de agências e caixas eletrônicos do Banco Bradesco em Belo Horizonte tem impactado a população, precarizado o atendimento e trazido adoecimento aos bancários. Denúncias sobre o tema foram trazidas por representantes dos trabalhadores e sindicatos, em audiência realizada nesta terça-feira (28/7) pela Comissão de Direitos Humanos, Habitação, Igualdade Racial e Defesa do Consumidor da Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH). Solicitado pelo vereador Pedro Patrus (PT), o encontro foi conduzido por Luiza Dulci (PT). Segundo representante da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf), o Bradesco possui atualmente apenas 30 agências na capital, 13 delas funcionando como escritórios de negócio, onde não há atendimento ao cliente. Além das consequências para os trabalhadores bancários, foram relatados reflexos dessa redução do atendimento presencial especialmente para os clientes idosos, pessoas com deficiência e moradores de periferias. A direção do Banco Bradesco foi convidada para participar da discussão, mas não enviou representantes. Dentre os encaminhamentos do encontro estão a possibilidade de criação de uma legislação que determine um número mínimo de caixas físicos e eletrônicos nas agências da capital.
Impacto sobre a população
Ao abrir a audiência, Luiza Dulci afirmou que o debate vai além da prestação de serviços financeiros e envolve direitos fundamentais dos trabalhadores e das pessoas impactadas pelo fechamento de agências. Segundo ela, embora o foco da audiência fosse o Bradesco, o processo de encerramento dos atendimentos reflete uma tendência das grandes instituições financeiras. "Vemos que esse fechamento de agências tem impacto sobretudo sobre a população idosa, as pessoas com deficiência e aquelas que não têm familiaridade com as novas tecnologias", ressaltou Luiza Dulci.
A vereadora Juhlia Santos (Psol) classificou a redução da rede física de atendimento como um processo que amplia desigualdades sociais. Para ela, o acesso aos serviços digitais não alcança toda a população, o que aprofunda a exclusão de quem depende do atendimento presencial. "A gente sabe quem são as pessoas mais atingidas: as populações periféricas, as mulheres, mães solos, sob um marcador racial", afirmou.
Lucro, redução da rede e debate nos legislativos
Representantes de entidades sindicais criticaram o fechamento de agências em um momento de elevado lucro do setor financeiro. Carlindo Dias de Oliveira, da Federação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro de Minas Gerais (Fetrafi/MG), afirmou que o desempenho financeiro da instituição não justificaria a redução da estrutura de atendimento.
“O Bradesco encerrou o primeiro semestre de 2026 com lucro de R$ 6,8 milhões, ao mesmo tempo em que fechou centenas de agências e postos de atendimento e reduziu milhares de postos de trabalho”, afirmou Carlindo Dias.
Vice-presidente da Contraf, Vinícius Silva defendeu que o tema seja discutido pelos parlamentos estaduais e municipais, apesar de a regulamentação do sistema financeiro ser de competência federal. "Há dez anos, tínhamos 83 agências do Bradesco na cidade. Hoje, são 30. Os bancos lucram bilhões e precisamos debater uma regulamentação com a sociedade. Queremos um sistema financeiro que seja inclusivo, que gere emprego e renda", disse.
Sem atendimento presencial ou caixas eletrônicos
O presidente do Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte e Região, Ramon Silva Rocha Peres, afirmou que as instituições financeiras estariam descumprindo normas do Banco Central relacionadas ao atendimento presencial. Segundo ele, a legislação impede que os bancos obriguem clientes a utilizar exclusivamente canais digitais."A resolução do Banco Central determina que os bancos não podem empurrar o cliente para o meio digital, não podem recusar atendimento presencial. Já denunciamos esse descumprimento e nada acontece", afirmou.
Também representante do Sindicato dos Bancários, e funcionário do Bradesco, Giovanni Alexandrino Castro contou que apenas na Região de Venda Nova, três agências foram fechadas. Ele explicou que a estratégia do banco é substutuir as agências tradicionais por unidades voltadas à migração dos clientes para o atendimento digital, e parte das unidades restantes já não dispõem de caixas eletrônicos nem atendimento presencial.
"Estamos desesperados. Está havendo um desmonte no Bradesco. O banco está empurrando todo mundo para o Centro de Belo Horizonte ou para o digital", afirmou o funcionário do banco.
Aumento nas fraudes
O superintendente regional do Trabalho em Minas Gerais, Carlos Calazans, alertou para o aumento da exposição da população às fraudes bancárias em ambientes digitais, em especial as de menor renda, principais vítimas desses crimes. "A população mais vulnerável está à mercê de todo tipo de fraude. Precisamos continuar essa discussão e lembrar que não somos máquinas; somos homens e mulheres, e o trabalho tem valor", afirmou.
Encaminhamentos
Ao final da audiência, Luiza Dulci informou que a direção do Banco Bradesco foi convidada para participar da discussão, mas comunicou que não poderia comparecer. Entre os encaminhamentos apresentados estão a elaboração de uma possível legislação municipal sobre a oferta de serviços bancários, a apresentação de moções de repúdio ao fechamento das agências e a solicitação de esclarecimentos à Prefeitura de Belo Horizonte, responsável pela folha de pagamento dos servidores municipais junto ao banco, sobre a qualidade do atendimento prestado à população e aos servidores.
Superintendência de Comunicação Institucional



