CONTRA COVID-19

Trabalhadores do transporte coletivo querem prioridade na vacinação

Exposta desde o início da pandemia, categoria questiona demora de imunização e ameaça paralisação

segunda-feira, 24 Maio, 2021 - 19:30
ônibus coletivo aguardando passageiros
Foto: Adão de Souza / PBH

Considerados prestadores de serviços essenciais, os trabalhadores do transporte coletivo de Belo Horizonte reivindicam a imediata imunização contra covid-19. O tema foi debatido em audiência pública pela Comissão de Saúde e Saneamento, nesta segunda-feira (24.5). Autora do requerimento da audiência, a vereadora Iza Lourença (Psol) destacou a necessidade de imunizar esses profissionais ao alegar que a categoria, responsável por transportar grande parte dos outros trabalhadores essenciais – inclusive da área da saúde – não parou durante toda a pandemia. Os trabalhadores reclamaram da demora na imunização da categoria, que segundo eles, está entre as mais expostas ao vírus, enquanto os representantes do poder público alegam seguir as orientações do Ministério da Saúde, que determina que os trabalhadores do transporte coletivo sejam vacinados na 21ª etapa. O sindicato da categoria ameaçou paralisação para garantir o direito à imunização. 

Alto grau de exposição

Presidente da Federação Nacional dos Metroviários, Celso Borba informou que o transporte coletivo é o segundo setor que mais se contamina no país, ficando atrás apenas do setor da saúde. “Não queremos furar fila, mas transportamos milhões de trabalhadores e estamos entre aqueles que mais sofrem com a pandemia”, afirmou. Ele destacou ainda que a categoria não parou de atender a população, não pode fazer rodízio e está há um ano e meio enfrentando a crise sanitária. Ele também lamentou a falta de transparência das empresas que não repassam os dados sobre a contaminação dos trabalhadores, o que dificulta uma atuação mais efetiva por parte do sindicato. Diante das alegações de que a categoria será vacinada na 21ª etapa de prioridade, Celso afirmou que a categoria deve se organizar e mostrar a necessidade do setor de transporte para o funcionamento da cidade. “Pode haver paralisação em BH e a Prefeitura sabe o motivo”. 

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Rodoviários de BH (STTRBH), Paulo César, concordou com a necessidade de priorização dessa categoria. Para ele, os trabalhadores do setor de transporte são os mais expostos. “Além de nos preocuparmos com o trânsito, o bem-estar e a segurança do passageiro, o troco, a cobrança da tarifa, ainda temos que fiscalizar se o passageiro está usando máscara corretamente. Somos contaminados e levamos a doença para nossos familiares”, justifica. 

A vacinação imediata dos trabalhadores do transporte público também foi defendida pelo representante do Sindicato dos Metroviários de Minas Gerais, Romeu Machado. Segundo ele, a probabilidade de um profissional do transporte público se contaminar é tão grande quanto de um profissional de saúde. “Estamos expostos ao vírus diretamente e não há equipamentos de proteção. Ao contrário do profissional de saúde que tem todo um aparato e pode identificar quem está ou não com sintomas, nós estamos lidando diretamente com as pessoas, inclusive aquelas que procuram o sistema de saúde com sintomas de covid-19 e que eventualmente recorrem ao transporte público para ir até o hospital”, desabafou. “O que nos diferencia dos demais trabalhadores essenciais é que 80% deles dependem dos nossos serviços. Queremos estar em igualdade de condições com os profissionais de saúde”, exigiu.

Romeu lembrou que a categoria não foi incluída como prioridade do Ministério da Saúde, durante a elaboração do protocolo de ações de combate à crise sanitária, mas que não existe impedimento para que seja feito agora. “Já está provado que o transporte público é um vetor de disseminação do vírus tendo em vista que não é possível o distanciamento dentro de ônibus ou metrô. Não há como obrigar o usuário do serviço a usar máscara corretamente e é grande o risco para motoristas, trocadores, bilheteiros, enfim, todos os trabalhadores”, disse. O metroviário afirmou ainda que a categoria não vai aceitar ficar fora do grupo prioritário e que em outras cidades a categoria já está sendo vacinada.

Apoio dos parlamentares

A vereadora Iza que concordou com o risco que os trabalhadores do transporte correm ao conduzir “ônibus lotados, em horários de pico. Eles se arriscam, arriscam a vida das famílias e estão na 21ª posição na lista de prioridades do governo”. Para a parlamentar, é “legítima a demanda dos trabalhadores que vivem angustiados; tendo em vista o grau de exposição e de dedicação da categoria, ela deveria ter sido mais priorizada”, afirmou, ao destacar a má gestão da pandemia em nível nacional.

O vereador Dr. Célio Froes (Cidadania) ressaltou a excelência do Brasil no quesito imunização e culpou o governo federal pela tragédia vivida no país. “O plano nacional de imunização do Brasil é o melhor do mundo, mas infelizmente esse governo genocida é o grande responsável pelo elevado número de mortes no Brasil. Vamos continuar com nossa luta discutindo com o poder público para tentar fazer uma inversão de prioridades e incluir a categoria de metroviários nos grupos a serem imunizados. Esta Casa e a Comissão de Saúde sempre estarão abertas e atentas a essas reivindicações”, afirmou.

Grupos prioritários

De uma forma bem didática, o representante da Secretaria Municipal da Saúde, Paulo Correia, explicou que os trabalhadores do transporte coletivo estão sim entre o público prioritário. De acordo com ele, existe um plano nacional de vacinação que estabelece 28 etapas de vacinação para o público prioritário que, só na capital mineira, esse grupo é composto por 1,1 milhão de pessoas. Ele esclareceu que a lógica do Ministério da Saúde leva em conta a maior probabilidade de adoecer e que desta forma foram priorizados os públicos de maior idade e os trabalhadores da saúde, que já foram imunizados, e os portadores de comorbidade com idade entre 18 e 59 anos, que estão sendo imunizados no momento. 

Seguindo o protocolo estabelecido, serão vacinados os portadores de deficiência sem Benefício de Prestação Continuada (BPC), as pessoas em situação de rua, as pessoas privadas de liberdade, os profissionais de educação e de segurança, e só então, os trabalhadores do transporte coletivo. Segundo Paulo Correia, Belo Horizonte espera receber as doses da vacina para imunizar o restante do público prioritário. “Tem a ver com a capacidade de produção da vacina. Precisamos que o Ministério da Saúde mande as doses suficientes para alcançarmos 1,1 milhão de pessoas do público prioritário”, informou. 

Questionado pela vereadora Iza se há previsão para vacinação dos metroviários, Paulo Correia afirmou que a produção de vacina estava paralisada por falta de insumo e que não há como prever quando o Ministério da Saúde vai encaminhar as doses necessárias para vacinação dos grupos prioritários. “O Ministério da Saúde sinaliza que até meados do segundo semestre a gente consiga vencer a etapa de prioridades”, respondeu. 

Já a representante da Secretaria Estadual de Saúde explicou que a falta de dados como ocupação nas fichas de notificação de covid-19 dificultou a análise de contaminação por categoria. De acordo com ela, os dados começaram a ser inseridos no sistema só a partir de junho. 

Superintendência de Comunicação Institucional 

Audiência pública para discutir a prioridade na vacinação dos trabalhadores do transporte público - 5ª Reunião Extraordinária - Comissão de Saúde e Saneamento