Especialistas defendem assistência psicológica especializada antes e após o parto
A necessidade de ampliar e qualificar o atendimento psicológico no período perinatal na rede pública de saúde (SUS-BH), prevenindo o surgimento ou agravamento da depressão, ansiedade e outras formas de sofrimento psíquico de gestantes e puérperas foi reforçada por todos participantes da audiência pública da Comissão de Saúde e Saneamento, na tarde desta quarta-feira (6/5). Profissionais de saúde mental e obstetrícia que lidam com mulheres nesses períodos de alta vulnerabilidade emocional cobraram a criação e efetivação de políticas públicas estruturadas de atenção, acompanhamento e suporte psicológico durante a gravidez, o parto e também após a alta hospitalar, além de acolhimento e atenção humanizada em casos de perda gestacional ou neonatal. Requerente do debate, Wanderley Porto (PRD) se prontificou a acolher e encaminhar sugestões de projetos de lei e indicação de ações ao Executivo, contribuindo na mobilização pela saúde de mães e bebês.
Identificar e acolher
Wanderley Porto explicou que a audiência foi solicitada pela psicóloga Aline Dutra de Lima, especialista em saúde perinatal. Ele destacou que, no Brasil, cerca de 10% das gestações evoluem para aborto, o que reforça a urgência de políticas públicas que contemplem não só o cuidado físico, mas também o suporte emocional. Além de disponibilizar psicólogos perinatais na rede pública para prevenção do adoecimento mental, o vereador defendeu a adoção de protocolos humanizados em situações de perda gestacional e neonatal, assegurando acolhimento respeitoso à mãe e à família, o direito de se despedir do bebê e realizar rituais.
Aline Dutra reafirmou a necessidade de atenção ao sofrimento psíquico da mulher antes e depois do nascimento do bebê, “que segue sendo pouco vista, pouco falada e pouco assistida”. Segundo ela, uma em quatro mulheres sofre depressão no período, fora os quadros de ansiedade e estresse. No contexto de romantização da maternidade e da expectativa social, a mulher silencia e tenta dar conta de tudo, o que gera sobrecarga, culpa, medo e solidão. Sem o devido acolhimento, o adoecimento mental compromete a qualidade de vida da e a relação mãe-filho, impactando diretamente em sua saúde e desenvolvimento.
Questão de saúde pública
De acordo com as especialistas, o problema ultrapassa o indivíduo, afetando crianças e famílias, tratando-se de uma questão de saúde pública. E, apesar de algumas leis e iniciativas importantes, elas não vêm sendo aplicadas na prática e ainda há muitas falhas no processo; entre elas, a falta de profissionais qualificados para identificar e lidar com o adoecimento. Nesse cenário, torna-se necessária a capacitação de equipes, o acompanhamento especializado e garantia de acesso a espaços de escuta e cuidado. Poliana Lopes, enfermeira obstetra, defende que o suporte psicológico seja estendido após a alta hospitalar, com atendimento e assistência adequada nas Unidades Básicas de Saúde (UBS).
A doula e educadora perinatal Kéren Farias, que acompanha a realidade social e humana de gestantes e famílias antes e depois do parto há mais de 10 anos, lamentou que muitas chegam a esse momento desconhecendo os processos de condução do parto e seu direito a participar ativamente das decisões. A profissional reiterou a negligência do sistema em relação ao período do puerpério, em que as mudanças hormonais e emocionais tornam a mulher mais vulnerável a desequilíbrios psíquicos.
Foco na prevenção
O fortalecimento da educação perinatal e da conscientização por meio de rodas de conversa e ações de equipe multidisciplinar especializada favorecem o reconhecimento de emoções normais durante essa fase e a identificação de sinais, prevenindo o agravamento e as consequências nocivas para a mãe e o bebê, segundo as psicólogas Sara Rodrigues e Ana Lúcia Borges. Sara reforça que a imagem de “forte e guerreira” associada às mães desconsidera que a experiência da maternidade envolve crises, perdas e sentimentos contraditórios. Temendo não corresponder às expectativas, ela mascara o sofrimento e a exaustão, e a frustração e o isolamento resultantes podem leva-la a negligenciar o autocuidado e os cuidados com o filho.
Coordenadora da Mobilização Nacional pela Saúde Mental Materna, celebrada nesta data (6 de maio), Ana Borges ressaltou a importância de articular cuidados integrais às mães dentro e fora do ambiente hospitalar, do planejamento familiar aos cuidados com a criança nos primeiros anos de vida. A capacitação de profissionais e a sensibilização das famílias e da sociedade para identificar o adoecimento emocional e oferecer apoio psicológico adequado e suporte social permitem que a mulher retome a existência para além da função materna.
O vereador José Ferreira (Pode) disse que, segundo uma especialista da Faculdade de Medicina da USP, 60% dos casos de depressão perinatal poderiam ser prevenidos com ativação de uma rede de apoio e encaminhamento adequado ainda durante a gestação. O presidente da Comissão reforçou que é preciso combater o preconceito que dificulta a busca de ajuda, “libertando a mulher da pressão de um ideal inatingível“, que gera culpa, tristeza, exaustão e isolamento, e destacou o papel do pai e companheiro de atuar como parceiro e cuidador.
Pai presente e família participativa
Neném da Farmácia (Agiliza), titular da comissão, destacou a necessidade de orientar pais e maridos sobre a importância de um lar onde as mulheres tenham estabilidade, sejam amparadas e cuidadas. “Uma sociedade justa não pode colocar toda a responsabilidade sobre a mãe e depois julgá-la quando ela demonstra cansaço. É preciso rede de apoio, pai presente, família participativa, políticas públicas eficazes, acesso a informação e acolhimento”, acredita.
“O equilíbrio é não negar a beleza da maternidade, mas também não esconder o sacrifício; reconhecer que o amor não anula o cansaço, e que cuidar de quem cuida é uma responsabilidade de todos”, ponderou o vereador.
Ana Borges elogiou o envolvimento deles nessa causa e sua contribuição como homens e como vereadores para sensibilizar a sociedade, promover recursos e incentivar a criação e a efetivação de leis e políticas públicas que ofereçam assistência e suporte adequado a todas as mães em todas as fases da maternidade. “A maternidade solo não diz respeito a estado civil; conheço uma infinidade de mães casadas que são as únicas responsáveis pela criação, cuidado e sustento dos filhos, ficando sobrecarregadas e adoecidas”, relatou.
“Às vezes parece que ninguém nota os esforços diários da batalha de uma mãe. Ninguém percebe as noites sem dormir, os gritos contidos, o banho não tomado, a comida quente e saborosa que se transformou em pão, manteiga e café frio. Ninguém percebe quando uma mãe trabalha à beira da exaustão”, alertou.
Projeto em análise
Também especialistas no tema, as psicólogas Janaína Barreto Fernandes, da gerência de Saúde Mental, e Paula de Oliveira Alves, referência técnica da Secretaria Municipal de Saúde, concordam que o poder público deve olhar com mais empatia e amor para os momentos mais vulneráveis da maternidade e que a prevenção precisa acontecer na atenção primária para reduzir o adoecimento. Janaína destacou a presença de psicólogos em todas as unidades básicas, a oferta de grupos e espaços terapêuticos e a utilização das equipes de saúde da família na escuta, identificação e encaminhamento dos casos.
“A equipe já faz isso, mas é preciso colocar na mesa, problematizar, discutir, voltar cada vez mais o olhar para esse público”, reforçou Paula Alves. A gestora disse que um projeto elaborado por ela para inserção da abordagem psicológica (Pré-natal Integral) nas UBS, priorizando a prevenção e identificação precoce, está em análise no órgão.
Proposição de leis e ações
Antes de encerrar a audiência, Wanderley Porto assegurou que essa pauta continuará ativa na Casa e está aberta às contribuições, sugestões de projetos de lei, pedidos de informações e intermediação de ações junto ao Executivo. Para reforçar a mobilização, ele convidou a todos para participar de uma caminhada promovida pelo grupo neste sábado, às 9h, partindo da Praça Alberto Dalva Simão, na Pampulha.
Superintendência de Comunicação Institucional
